A Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro e muitas vezes visto como pobre em vegetação, foi responsável por cerca de 38% das remoções de gases de efeito estufa do país em 2022. O dado é de um levantamento do Observatório da Caatinga e Desertificação (OCA), da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com base no inventário internacional Climate TRACE, que estima emissões e remoções por imagens de satélite e inteligência artificial.
Caatinga à frente de Mata Atlântica e Cerrado
Por que o semiárido captura tanto carbono
Segundo os pesquisadores do OCA, a Caatinga converte cerca de 60% do carbono absorvido na fotossíntese em biomassa (folhas, galhos, troncos e raízes). Na Amazônia, esse percentual é de cerca de 30%, porque a respiração do ecossistema devolve mais carbono à atmosfera. Depois de meses de seca, poucos dias de chuva bastam para reativar a fotossíntese e transformar o bioma em um forte sumidouro de CO₂.
O resultado conversa com um estudo da Unesp publicado na revista Science of the Total Environment, que comparou os inventários SEEG e Climate TRACE entre 2015 e 2022. A pesquisa mostrou que a Caatinga ocupa cerca de 10% do território nacional, mas chegou a responder por quase metade das remoções de carbono do país em alguns anos, com salto nos anos chuvosos de 2021 e 2022.
O entrave dos créditos de carbono
O Brasil regulamentou o mercado de carbono em 2024, mas a Caatinga ainda tem poucos projetos geradores de créditos. Para os pesquisadores, as metodologias foram pensadas para ambientes úmidos e não refletem a dinâmica do semiárido.
“Para a Caatinga, o que falta não é uma regulamentação específica, mas metodologias de medição reconhecidas.”— Pesquisadores do Observatório da Caatinga e Desertificação (OCA/UFCG)
O que isso muda na prática
Conservar e restaurar a vegetação nativa da Caatinga ganha valor econômico e climático. Para produtores rurais e empresas com áreas no semiárido, isso reforça a importância de manter a Reserva Legal e as APPs regularizadas, caracterizar corretamente a vegetação e planejar a recomposição de áreas degradadas, ativos que podem ganhar valor com a evolução do mercado de carbono.
Perguntas frequentes
Quanto CO₂ a Caatinga retirou da atmosfera em 2022?
Cerca de 410 milhões de toneladas de CO₂, o equivalente a 38% das remoções de gases de efeito estufa do Brasil naquele ano, segundo levantamento do OCA/UFCG com dados do Climate TRACE.
Por que a Caatinga captura tanto carbono?
Porque converte cerca de 60% do carbono absorvido em biomassa e responde rapidamente às chuvas: poucos dias de chuva após a seca reativam a fotossíntese em larga escala.
A Caatinga pode gerar créditos de carbono?
Pode, mas ainda há poucos projetos. Os pesquisadores apontam que faltam metodologias de medição reconhecidas e adaptadas à dinâmica do semiárido.





